Ilustração: “Mulher indígena e sapatão”| “Fincar raiz e espalhar a semente” – © Yacunã Tuxá, 2019
Na luta por direitos e pelo combate à violência e ao preconceito, o movimento LGBTQIA+ indígena ganha cada vez mais força demarcando sua bandeira colorida pela primeira vez na maior mobilização indígena do país
Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de tratar a homossexualidade como doença. Embora o caminho na direção de liberdade de poder ser quem se é ainda encontre muitos desafios pela frente, despatologizar a condição homossexual foi de extrema importância para os indivíduos LGBTQIA+ e também para que o debate sobre a questão de gênero tomasse proporções mais amplas.
Quase 20 anos depois, as pessoas transgênero deixaram de ser tratadas como pessoas com distúrbios, o que configurou uma grande conquista do movimento LGBTQIA+. A remoção da transgeneridade da classificação de doenças da OMS em 2019 consolidou mais uma posição de resistência contra a recente onda ultraconservadora que defendia que pessoas transgêneras pudessem ser “curadas” através de tratamentos em busca da “cura gay.”
Ser indígena e LGBTQIA+ pode significar uma vivência duplamente difícil, se levarmos em conta uma grande parcela da sociedade que não está pronta para os debates sobre o preconceito, dentro dos próprios movimentos indígena e LGBTQIA+ inclusive. Assim como acontece em movimentos sociais como o feminismo, a interseccionalidade da luta LGBTQIA+ precisa ser cada vez mais difundida no sentido de formar uma frente de mobilização ampla e que acolha as diversas esferas subjetivas presentes na discussão de gênero. Com pelo menos uma morte a cada 29 horas, o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, segundo relatório “Mortes Violentas de LGBTI+ no Brasil – 2021”, divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB).
Diversidade de povos, diversidade de corpos
Na resistência pela luta de direitos e passando pelos preconceitos com seus cocares e bandeiras coloridas, o movimento LGBTQIA+ indígena conquistou em 2022 pela primeira vez um espaço de representatividade na maior mobilização indígena do país, colorindo o ATL com as sete cores do arco-íris. A plenária histórica contou com representantes de movimentos LGBTQIA+ de todos os biomas do país, trazendo temas como apagamento e invisibilidade, sexualidade, violência, saúde mental e outras pautas que atravessam a vida de pessoas indígenas não-binárias.
“Nós, enquanto movimento social precisamos lidar de forma ética e justa com a diversidade existente em nossos corpos-territórios. Não podemos reproduzir a lógica de deslegitimação e violência dos não indígenas com a pluralidade de nosso povo, pois o mundo branco já possui demasiadamente manchas vermelhas de nosso sangue diante da repulsa e racismo que sofremos por eles. Essa é uma pauta necessária e urgente. Não podemos tolerar o racismo! Basta de LGBTIAfobia! Basta de violência!” – trecho do manifesto entregue à APIB, organizadora do Acampamento Terra Livre.
Coletivos como o Caboclas e o Tibira representam hoje a luta destes corpos-territórios que resistem e re-existem ocupando as universidades, os veículos de comunicação, a literatura, as artes e onde mais quiserem estar. A ativista e pesquisadora Geni Núñez também traz reflexões necessárias sobre o não-binarismo e questões de identidade e gênero em seu perfil @genipapos e em cursos, palestras e pesquisas que ela ministra regularmente.