Depois das urnas, o medo: a escalada de violência contra indígenas no Mato Grosso do Sul

Em Por Gerlaine Araujo / 0 comentários
Povos indígenas do Mato Grosso do Sul enfrentam o aumento da violência e ameaças aos seus territórios.

Dois dias depois do segundo turno, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tornou pública uma série de denúncias de violência contra povos indígenas no Mato Grosso do Sul. A lista inclui assassinatos em Naviraí, atropelamentos em Coronel Sapucaia, ameaças de morte, manifestações racistas e ameaças de envenenamento da água de comunidades em Tacuru e Nioaque. Indígenas Terena também relataram ter sido impedidos de votar em escolas dentro das próprias aldeias e chamados de “bugres”, termo historicamente racista.

 

Foto: Midia Ninja

 

 A assessoria jurídica da Apib enviou ofício e representação criminal ao Ministério Público Federal, à Polícia Federal e aos ministérios da Justiça, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos. A entidade cobra ivestigação imediata, proteção às comunidades ameaçadas, apuração de denúncias de omissão policial e responsabilização dos envolvidos.

Tacuru: “veneno na água”

Terra Indígena Dourados Amambaipeguá 1, em Caarapó, Mato Grosso do Su .(Foto: Ana Mendes/Amazônia Real)

 

O caso mais documentado até agora aconteceu em Tacuru, no sul do estado. Circula um áudio em que dois homens, revoltados com o resultado da eleição, falam em colocar veneno na água consumida pela comunidade da Aldeia Sassoró, dos Guarani Kaiowá. O prefeito confirmou que os dois são servidores municipais, e um deles trabalha justamente no abastecimento de água por caminhão-pipa para as aldeias. Um servidor foi afastado e responderá a processo administrativo, mas o prefeito chegou a chamar o episódio de “mal-entendido”. O cacique e vereador Ivan Montiel reagiu: “não vamos aceitar este tipo de preconceito contra nossa comunidade”. Ele promete buscar responsabilização na Justiça. A Polícia Federal investiga a origem das gravações. Não há confirmação de que a água tenha sido contaminada, mas a ameaça pesa sobre comunidades que já dependem de caminhão-pipa para ter água.

As mortes e a resposta do poder público

Terra Indígena Dourados Amambaipeguá 1, em Caarapó, Mato Grosso do Sul | Foto: Ana Mendes/Amazônia Real

 

As mortes denunciadas ainda têm poucos detalhes públicos. Em Coronel Sapucaia, um indígena, possivelmente da Aldeia Taquapery, morreu na rodovia MS-289 na madrugada de 24 de outubro, véspera da votação. Testemunhas dizem que ele já estava caído na pista quando foi atingido por um carro da prefeitura, e a Polícia Civil investiga as circunstâncias. Sobre Naviraí, os nomes das vítimas e as circunstâncias não foram divulgados. A Secretaria de Segurança de MS e a PF afirmam não ter registro de mortes com motivação política. No governo federal, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, acionou a PF, e os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial formaram uma força-tarefa. “É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência”, diz a nota conjunta.

Uma violência que não começou agora

Foto: Jefferson Rudy

 

A escalada pós-eleitoral acontece num estado onde a violência contra indígenas já é rotina. Segundo o relatório mais recente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado em agosto, o Mato Grosso do Sul registrou 37 assassinatos de indígenas em 2025 e lidera pelo quinto ano seguido a violência contra a pessoa indígena no país. Os Guarani Kaiowá vivem há décadas confinados em reservas superlotadas ou em retomadas à espera de demarcação, sob ataques constantes. Em novembro de 2025, Vicente Fernandes Vilhalva foi morto com um tiro na cabeça durante um ataque à retomada Pyelito Kue, em Iguatemi. Quando a demarcação não avança, a violência ocupa o espaço. 

Por isso a Apib repete: demarcação é democracia. A Tucum se soma à cobrança por investigação, proteção às comunidades e responsabilização dos envolvidos


 

Fontes

  • Apib no Instagram: denúncia de violência no MS após o 2º turno

  • CNN Brasil: indígenas denunciam ameaças após eleições no MS

  • Conexão Planeta: mortes, racismo e ameaça de envenenamento são investigados pela PF

  • NC News: PF investiga agressões e ameaças contra indígenas em MS

  • Midiamax: servidor afastado após ameaça de envenenar água em Tacuru

  • Jardim Notícias: prefeito de Tacuru chama áudios de “mal-entendido”

  • A Gazeta News: atropelamento com morte entre Amambai e Coronel Sapucaia

  • Jornal GGN: Sejusp-MS e PF contestam motivação política das mortes

  • Revista Fórum: Terena sofrem ameaças e racismo pós-eleições

  • Midiamax: MS lidera violência contra indígenas pelo 5º ano

  • Agência Brasil: Guarani Kaiowá assassinado em ataque no MS (nov/2025)

 

Publicação anterior
Próxima publicação

Deixe um comentário

Observação: comentários precisam ser aprovados antes de serem publicados.