Por: Amanda Santana
Quando penso num dia comum de uma artesã, vem à minha mente a imagem de um grupo de mulheres reunidas no fim de tarde, sentadas à porta de casa em sua aldeia. Há crianças brincando em volta, o papo rolando de forma agradável enquanto as mãos trabalham com firmeza e os olhos seguem atentos no seu fazer. De vez em quando uma jovem vem e se senta para ver, ouvir e aprender. Essa é uma cena corriqueira nos territórios tradicionais Brasil afora. Essa é uma cena de resistência.

O fazer artesanal é, antes de tudo, um ato de resistência. Cada criação materializa os conhecimentos tradicionais que asseguram a continuidade da memória que cada artesã carrega de seus ancestrais. Mais que um trabalho, ser artesã é um devir, um propósito que gera renda, autonomia e autoestima, mas é também ensinamento, reafirmando que os que vieram antes importam, seguem vivos, lembrados e mantidos pelos mais jovens.

A relação com o tempo é uma constante na vida das artesãs: seja na coleta da matéria-prima na floresta e em seus processos de beneficiamento, seja na espera do pedido de miçangas importadas da República Tcheca. O ritmo do fazer nada tem a ver com o ritmo que a sociedade moderna adotou, aquele que destrói o meio ambiente e a nós mesmos, gerando uma epidemia de ansiedade e depressão, sintomas da nossa desconexão com o tempo.
No mundo em que vivemos em constante fricção com agentes de inteligência artificial, onde em pouco tempo não saberemos mais o que é real ou o que foi artificialmente criado, o artesanato se reafirma como a mais concreta realidade que podemos acessar. Uma realidade material que nos conecta ao presente, a pessoas, a histórias e a territórios resilientes.

Compartilhar a realidade material e imaterial das artesãs é a maior missão da Tucum: apoiá-las na resistência feita de luta, beleza e criatividade. As mulheres que formam 80% da nossa rede enfrentam, muitas vezes, dupla ou tripla jornada de trabalho. Além de artesãs, são estudantes, mães, avós, enfermeiras, professoras, deputadas, advogadas, empreendedoras, farinheiras, extrativistas, pescadoras. Ser exclusivamente artesã é algo raro de se ver.
Tenho o privilégio de trabalhar com artesãs há 15 anos e encontro nessas mulheres verdadeiras mestras na arte de tecer uma vida mais justa e tramar futuros possíveis com beleza. Elas são nossas guias e as celebramos, e celebraremos, todos os dias.
