O Acampamento Terra Livre foi criado em 2004 e se consolidou, ao longo das décadas, como a maior assembleia indígena do Brasil, um espaço que nasceu da necessidade concreta de unir vozes dispersas por um território continental, desenvolvendo presença em pressão política. Isso por si só já diz muito sobre o que este país ainda deve a seus povos originários, e sobre o tamanho do esforço que é necessário para simplesmente ser ouvido
Foto: Than Pataxó/ APIB
O ATL 2026 acontece no contexto de agravamento da crise climática, do aumento da violência nos territórios indígenas e dos ataques do Congresso Nacional aos direitos originários. O que tramita no Legislativo brasileiro neste momento é uma ofensiva sistemática: ao menos seis propostas anti-indígenas tramitam no Congresso Nacional, como a PEC 48 (Marco Temporal) e PDLs contra demarcações. É preciso chamar pelo nome o que é: um Congresso que, em larga medida, era como adversário dos povos que tinham este território antes de qualquer Estado existir.
Foto: Hellen Loures/Cimi
Chegando à sua 22ª edição com o tema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, e a escolha das palavras reflete a lógica de mercantilização operando sobre as terras indígenas, mineração, agronegócio, especulação imobiliária, exploração energética na Margem Equatorial. Grandes empreendimentos continuam sendo motivo de preocupação para as comunidades, especialmente projetos de infraestrutura ligados ao agronegócio, como a Ferrogrão. O governo federal retomou demarcações, foram 20 novos territórios entre 2023 e 2025, totalizando 2,5 milhões de hectares protegidos, mas o passivo acumulado em décadas de missão e retrocesso não se resolve com gestos pontuais. Cerca de 110 áreas ainda estão sob análise da União.
Povos indígenas marcharam em direção à Esplanada dos Ministérios durante o ATL 2026 contra o Congresso Nacional | Crédito: Camila Araújo
O movimento também amplia sua pauta para as eleições de outubro. Busca fortalecer a participação político-eleitoral indígena, com debate sobre candidaturas lançadas por uma frente de partidos aliados ao movimento indígena. Isso não é um desvio de foco, é uma compreensão de que a luta por território passa também pelo aldeamento da política institucional. O debate “Do território tradicional ao cenário global” aponta que o movimento indígena brasileiro vem fortalecendo sua atuação em espaços internacionais como parte de uma estratégia política de resistência e articulação. Os guardiões da floresta sabem que a luta agora também acontece em Genebra, em Brasília, nas redes, nas urnas. E onde estão precisa estar.
Acampamento Terra Livre 2026: marcha “Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”, em 09.04.2026. Foto: Helen Loures/Cimi
Nós, da Tucum, estamos ao lado desse movimento. O ATL nos lembra que arte, território e política são inseparáveis. O acampamento trouxe uma nova forma de organização coletiva, com os povos ouvindo uns aos outros e construindo soluções para seus problemas. Que o ATL 2026 ecoe além de Brasília, que chega aos quatro cantos do Brasil e do mundo. O futuro não está à venda.